quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Um preço justo


Estão-me sempre a perguntar porquê. Ficam muito admiradas. Chegam a deixar a boca aberta por uns segundos. E depois de uma pequena explicação minha ficam com uma expressão no rosto de desconfiança. Com o sobrolho franzido, ar sério e mão no queixo. É assim que ficam as pessoas que vou conhecendo por aqui e me perguntam porquê é quê deixei a cidade onde vivi parte da minha vida e onde tenho a minha família e vim viver a 600 km de distância. Gosto de dizer que a minha família vive no meu coração, mas eu vivo no mundo. No mundo todo e não me chega.

Quando faço a mesma pergunta a mim mesmo não respondo nada, mas vem-me uma imagem á cabeça e chega. Uma imagem de mim na água morna. Com os olhos ao nível da água. A ver as enormes gotas cairem na superficie lisa do mar e dividirem-se em mil e um novos salpicos. E ver a debandada. A multidam colorida e barulhenta a fugir. Como um estoiro de uma manada assustada.

Desde que nascemos que nos inoculam o medo no sangue.E assim nos controlam até á sepultura. Desde que nascemos que já os nossos pais se encarregam de traçar o caminho que julgam melhor para nós. E para quem é obdiente a vida parece confortável e fácil. Á partida não há que lidar com grandes surpresas.

Eu gosto de surpresas, do inesperado, de me meter num autocarro sem saber o destino. Os que não admitem o acaso e vivem numa ânsia absurda de controlo de si próprios e dos outros, do céu e das estrelas, não são livres e optam por uma segurança que ainda por cima, é ilusória.

"Guardar uma coisa não é esconde-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser iluminado. Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro do que pássaros sem vôos."
António Cicero

Não quero guardar a minha vida num cofre, mas quero guardar o meu mergulho no mar. E as saudades?
As saudades?
Um preço justo.
foto by LP

11 comentários:

perdida em Faro disse...

Concordo com cada palavra, com cada intenção e com o texto em geral, pelo menos com o sentimento que me inundou. Sinto o mesmo sei o mesmo.
Obrigada.
Bom ano para ti.

Bad Girl disse...

Palavras de quem já esteve do lado de lá dos 600 km, há pessoas que nunca entendem... Nem na sua cabeça se aventuram em viagens...

Jo disse...

Das coisas mais lindas que já terás escrito... percebo tudo, tudo, tudo. Há viagens que se empreendem sem nos deslocarmos no espaço. Foi o meu caso. Mas sente-se o mesmo. E a incompreensão é a mesma.
No fim das contas, pago o preço que for preciso.
:)
beijos**

Anônimo disse...

Gostava de ter a nacionalidade 'cidadão do mundo' no BI! É assim que me sinto - mesmo não podendo, fisicamente, abalar por este mundo afora...
No entanto, penso que teria uma certa dificuldade em deixar longe da vista quem trago no coração :( - mesmo sabendo que isto da distância é muito relativo!
Quem me dera ter liberdade suficiente para pagar o que preciso fosse em troca de águas mornas!... assim, compreendo, admiro e invejo quem o faz! ;)


P.S.: Bem vindo a 2008, com muitos salpicos! :D

Ana G disse...

welcome back. onde quer que seja.

S. disse...

Um preço justo, indeed! ;)
Bom ano!

R. disse...

este teu texto,foi um murrozinho no estômago..de há uns tempos para cá,não penso noutra coisa.de outra maneira.

e o preço,é mais do que justo!!!

Beijo**

L'etranger disse...


Jump!!!
Bjo

sofia
indeed!
Bom ano para ti tb!

ana
Thanks

mm
nem tenho palavras...gostava mesmo muito de um dia poder comentar um post teu.
Bom ano para ti tb e com muitas experiências novas e muitos momentos bons!

mariazinha
...
e há viagens fantásticas sem levantarmos os pés...
bjo

bad
são as mais pobres de todas....

tânia
eu é que agradeço, já não me sinto tão etranger..
Bom ano!

Anônimo disse...

Faço planos de vir a dar-lhe esse gostinho. :)

Ah!... 'brigadinha! ;D

poca disse...

ai de nós quando perdermos a liberdade do banho do mar sem anunciar.. ai de nós..

Ás de Copas disse...

O tamanho certo da vida, sem limites.